Como calcular pontos de sincronia – parte 1

Um grande desafio técnico foi vencido pela indústria do cinema em 1927, representado pelo grande sucesso do filme O cantor de Jazz. Apesar de já existirem sistemas de reprodução sonora com potência suficiente, o filme traz pela primeira vez as canções (muitas) e diálogos (poucos) sincronizados com a imagem. A partir daí, a música criada especificamente para o cinema passou a ter um compromisso de precisão que antes estava ausente. Métodos de cálculo,  composição e regência foram aos poucos sendo criados pelos músicos da indústria para obter uma coordenação cada vez melhor entre música e imagem. O próprio Carl Stalling, compositor da Disney e depois da Warner é famoso por, entre outras inovações, ter tido a idéia de fazer soar o metrônomo a todos os músicos executantes através de fones de ouvido. Veja esta interessante citação do livro The illusion of life, de Frank Thomas e Ollie Johnston, sobre a música criada para as animações da Disney nos primórdios do som sincronizado.

Em 1928, ninguém sabia como os desenhos animados e as notas da música poderiam ser planejados em conjunto. Era relativamente fácil improvisar uma composição para um filme pronto, mas descobrir antes da hora onde os tempos do compasso iam ocorrer nos desenhos estava além de todos.

No texto Sincronizando música para imagens expus um modelo simples para criar um rascunho de um trecho musical que deve respeitar o tempo de um trecho de filme. Aqui, pretendo dar mais detalhes de como proceder, incluindo exemplos de tabelas que podem ser usadas para calcular momentos de sincronia.

Em primeiro lugar, deixo claro que as ferramentas apresentadas abaixo não são as únicas nem as melhores para criar música sincronizada à imagem. Em comparação com a facilidade trazida pelas plataformas digitais para criação e edição multipista, métodos que envolvem cálculos e tabelas podem parecer vindos da idade da pedra. De qualquer maneira, as sugestões que se seguem são um caminho seguro para planejar um trecho musical com imposições de sincronia muito complexas.

Vamos começar com a descrição do tempo da imagem. Antes de sequer começar a pensar na música que você vai escrever, você precisa entender quais são os pontos “fortes” do trecho, ou seja, quais são potenciais pontos de sincronia. É necessário fazer uma cuidadosa descrição do trecho, marcando o tempo exato com precisão de centésimos de segundos ou frames (eu prefiro centésimos de segundos). Mas o que são exatamente “potenciais pontos de sincronia”? São aqueles momentos no filme em que seria adequado impor algum tipo de mudança à música. Cortes são candidatos naturais, mas procure também por fades, aparecimento de textos e movimentos bruscos da câmera ou dos personagens. As informações são organizadas em uma tabela que recebe o nome de Timing Sheet, como no exemplo abaixo.

Tempo absoluto Tempo relativo Evento
00:07,14 0,00 Início – Black out
  1,75 Início do fade in – close up da mocinha
  4,54 CORTE – plano aberto da mocinha deitada com monstro em primeiro plano
  8,95 CORTE – herói flutua de braços cruzados

Nem todos os pontos precisam obrigatoriamente ser sincronizados. Aliás, esta é uma decisão que acaba determinando muito o aspecto geral da música e a função que ela vai desempenhar. Para a sensibilidade atual dos espectadores de cinema, uma música com muitos pontos de sincronia dificilmente vai servir a uma função que não seja cômica e reminiscente do mickeymousing (música típica de animações e alguns filmes dos anos 30 e 40, em que a música se sincronizava com cada pequeno detalhe e movimento da ação).

Repare que a primeira coluna traz o ponto de entrada da música em relação ao início do filme e a segunda traz o tempo relativo àquele trecho musical somente. O primeiro número serve somente como referência, e o segundo número é muito importante para os cálculos que virão a seguir.

Mais dicas no próximo post.

 

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