Amélie e o Mockingbird

Na maioria dos bons filmes, nenhum detalhe é uma oportunidade pequena demais para encantar a platéia, mesmo que seja algo banal: dar crédito aos profissionais que fizeram o filme.

As seqüências de créditos iniciais oferecem um espaço para a criação de pequenas jóias do cinema. Em alguns casos especiais, esses filmetes quase que se destacam do filme principal, e por pouco não poderiam ser vistos como obras autônomas. Assim como podemos ouvir somente a abertura de Don Giovanni, de Mozart ou a abertura d’O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, poderíamos assistir a certos créditos iniciais sem necessariamente assistir ao filme inteiro.

Nos créditos iniciais, não há exatamente uma preocupação narrativa, mas somente a necessidade de através da música e de imagens, sugerir o ambiente ou o tema do filme. Assim, os créditos iniciais d’Os Pássaros (criado pelo célebre Saul Bass para Hitchcock) mostra somente sombras de pássaros, em alto contraste, conseguindo um resultado visual de grande agitação e tensão, que é reforçado pela ausência de música: tudo que se ouve são os gritos das aves e as suas asas batendo vigorosamente.

Prática incomum atualmente, em alguns filmes da primeira metade do século há algo que de fato se assemelha muito a uma abertura de ópera. Antes de iniciar a ação, antes mesmo dos créditos, há uma abertura musical, tocada contra uma tela em black out ou simplesmente contendo o temo “Overture”. Um exemplo um tanto extemporâneo é o Jornada nas Estrelas de 1979, com trilha de Jerry Goldsmith.

Em alguns casos a sequência de créditos iniciais faz uso não só de música, mas também de ruído e de voz. Há dois exemplos que me parecem estranhamente aparentados, tanto pela temática quanto pelas soluções sonoras e visuais: trata-se de O sol é para todos (To kill a Mockingbird, de 1962), de Robert Mulligan e O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001), de Jean Pierre Jeunet.  De fato, há tanta proximidade entre essas duas seqüências de créditos que é possível cogitar que o diretor francês quis homenagear o filme que conta a história do advogado Atticus Finch. Se você não gosta de spoilers, pare de ler o texto aqui.

Há pelo menos um ponto de contato muito importante entre esses dois filmes: a visão infantil do mundo. No caso do filme americano, a história é inteiramente contada pela filha de Atticus, Scout. Em Amélie Poulain, conhecemos a história de uma mulher profundamente marcada pela secura e solidão de sua infância. Amélie é uma tímida garçonete parisiense, uma verdadeira criança em corpo de mulher, que se apega a uma visão pura do universo que a cerca.

É da perspectiva de Scout que conhecemos Boo Radley, que inicialmente parece um recluso assustador mas que se revela uma boa alma, que quer desesperadamente fazer amizade com as crianças da vizinhança. Ele tenta se aproximar de Scout e de seu irmão Jem deixando presentinhos no oco de uma árvore, pequenos objetos que Scout guarda carinhosamente em uma caixa.

Em Amélie Poulain, é uma caixinha muito parecida, contendo lembranças de um menino que morou no apartamento ocupado pela garçonete, que desencadeia a aventura que acaba por mudar sua vida completamente.

A caixa que contém os tesouros de Scout é mostrada nos créditos iniciais de O sol é para todos. Não vemos o rosto da criança, apenas suas mãos brincando com os objetos e desenhando um passarinho (certamente o “mockingbird” do título original). Em close, a câmera faz um inventário dos objetos: uma bola de gude, uma pequena estatueta, um apito… A doce música de Elmer Bernstein respira e dá pleno espaço para a voz da criança, que ri e cantarola. O assunto central dos créditos iniciais de Amélie Poulain é o mesmo: uma menina que brinca. Da mesma maneira, a câmera mostra um inventário de suas brincadeiras. A música, apesar de constante, também dá espaço para as risadas e os ruídos que a menina faz.

Para terminar, uma coincidência particularmente interessante para quem gosta de música de cinema: nos dois filmes os nomes dos compositores aparecem quando a imagem mostra algo que produz som. Em O sol é para todos, em sincronia com o apito, um “instrumento musical” de brinquedo. De maneira semelhante, o nome de Yann Tiersen, que criou o score do filme francês, aparece quando a pequena Amélie tira uma nota girando os dedos na borda de um copo de cristal.

 

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