Animação e música: o mickeymousing

A animação da chamada era de ouro dos estúdios de Hollywood desenvolveu uma maneira muito própria de criar música para desenhos animados. Talvez a característica mais importante da música dos cartoons  americanos das décadas de 1930, 40 e 50 é a coordenação muito próxima entre música e imagem. O maneira mais difundida de se conseguir essa coordenação era uma forma de composição denominada mickeymousing. Basicamente, essa técnica procura mimetizar musicalmente os movimentos físicos: se um personagem caminha, seus passos estão sincronizados com a música; se ele sobe uma escada, ouve-se uma escala ascendente. O mickeymousing não se limitou à animação, transbordando para o cinema live-action (filmado com película, atores humanos, etc); um exemplo muito célebre é a sua utilização por Max Steiner em filmes como King Kong (1936).

É mais adequado classificar uma música como mickeymousing quando ela é composta após a finalização da imagem. Em casos como o longa Fantasia (1940), da Disney, há uma semelhante qualidade de sincronia entre música e imagem, mas não se trata de mickeymousing pois a música já existia antes da imagem. Os animadores trabalharam em cima de um registro sonoro, planejando os movimentos de maneira a combinar com a música. De qualquer maneira, Fantasia é um exemplo importantíssimo dos esforços para unir música e imagem que caracterizaram essa época. Outro exemplo pioneiro é Skelleton Dance, também dos estúdios Disney, de 1929 (também disponível no Youtube). Nessa animação, que tem música de Carl Stalling, as imagens e a música foram planejadas em conjunto.

A animação americana dessa época, portanto, explorou três possibilidades de obter a sincronização com a música: criar a imagem antes, depois e simultaneamente com a trilha. Hoje em dia isso parece banal, mas segundo o livro The Illusion of Life: Disney Animation (JOHNSTON e THOMAS, 1987), em 1928 ninguém sabia ao certo como planejar a animação de maneira que ela combinasse com a música. Assistindo Skelleton Dance pode-se testemunhar uma  sincronia um pouco rudimentar, típica das primeiras experiências nesse sentido (mas ainda assim muito mais bem sucedida do que em Steamboat Willie, o primeiro filme do ratinho Mickey, de 1928).

Essas inovações, aliás, não partiram somente do cinema comercial e geraram experimentações como as do escocês-canadense Norman McLaren e do neo-zelandês Len Lye (para quem não conhece esses dois artistas, pode ser muito recompensadora uma busca no Youtube; McLaren na verdade idealizou uma maneira diferente de criar música e imagem em conjunto, através da interferência direta na película e na pista de som ótico).

O que acaba se tornando evidente nos cartoons clássicos é o papel central desempenhado pela música. Não é à toa que as séries de animação tinham nomes que sugeriam associações com a música: Merrie Melodies (“alegres melodias”), Looney Tunes (“canções birutas”) e Silly Symphonies (“tolas sinfonias”). Esses cartoons eram fundamentalmente baseados na chamada comédia física, que privilegia o movimento corporal sobre a fala. Em alguns casos, não há absolutamente nenhum diálogo: o Coiote e o Papa Léguas, por exemplo eram praticamente mudos. Ao mesmo tempo, quedas, pulos, perseguições e explosões eram comuns. O pesquisador Daniel Goldmark chega a afirmar que os episódios do Papa Léguas nada mais são que uma sequência de gags que poderiam ser assistidas em qualquer ordem sem prejuízo do todo (2005).

Na prática, o uso de muitos diálogos impossibilita (ou no mínimo rouba o sentido) do mickeymousing pois no som de cinema a voz tem privilégio sobre a música, sendo mais importante para a compreensão da narrativa. Portanto, se a voz estiver presente o tempo todo, a música será ouvida sempre em baixo volume. Ademais, se os personagens ficam falando muito não sobra tempo para correr loucamente por estradas desertas em alta velocidade. Mesmo se estiverem usando botas-foguete fabricadas pela ACME.

 

Referências

GOLDMARK, Daniel. Tunes for Toons. Los Angeles: University of California, 2005.

JOHNSTON, Ollie; THOMAS, Frank. The Illusion of Life: Disney Animation. New York: Disney Editions, 1987.

 

2 Responses to Animação e música: o mickeymousing

  1. Ricardo Ivanov disse:

    Bem legal, Guima. Se tivesse uma máquina do tempo, gostaria de estar no meio de um estúdio onde eles gravavam essas trilhas com orquestra. Pois é sincronia de louco. Tem de ter musicalidade e precisão matemático-intuitiva, pois os movimentos nem eram tão cadenciados assim, pensados como música. Enfim, divagações… Já sincronizei muita coisa e é um trabalho complexo. rs… Abrax!

  2. Denison Dias disse:

    Hi Guima, muito bom.
    By the way Stefan Kuerschner e familia mandaram um grande abraco de Portland/Oregon para voce.
    Ele planeja voltar ano que vem para visitar.
    Um abraco.
    Denison

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