O som de Transformers 3: O Lado Oculto da Lua

Transformers 3 tem muitos trunfos para agradar aos fãs, entre os quais me incluo. Antes de falar especificamente sobre o som, vejamos quais são esses méritos (não leia o que vem abaixo se você ainda não viu o filme, pois o texto vai estragar a surpresa).

• Os efeitos visuais são espetaculares e estão longe de ser apenas um enfeite; seguindo uma tradição que está inscrita na história do cinema, Transformers 3 traz, além de uma estória bem contada, uma experiência inédita e extravagante para os sentidos. Nos seus primórdios, o cinema foi comercializado como uma curiosidade científica e cada inovação técnica (som, cor, tela anamórfica, 3D, computação gráfica) não só serviu de chamariz para o público como ampliou as próprias possibilidades da linguagem cinematográfica.
• Para nerds como eu, são muito saborosas as citações a Star Trek.
• Para nerds como eu, a simples presença de Rosie Huntington-Whiteley não pode piorar nenhum filme; mas o fato é que a garota também sabe falar e acaba por ter um desempenho honroso como atriz, nos momentos em que não está somente desfilando sua übergostosura.
• O filme tem no elenco de apoio atores espetaculares, no geral interpretando personagens improváveis ou francamente doidos, como John Malkovich, John Turturro e Frances McDormand.
• A comédia, elemento essencial da série, está melhor que nunca, incluindo as macaquices dos robôs mascotes de Sam e as performances “parafuso a menos” do executivo Jerry Wang e de Dutch, o guarda costas / secretário / personal stylist do agente Simmons.
• Os personagens centrais são exatamente aquilo que se espera deles: Sam é um herói por acaso, trapalhão mas corajoso. Optimus, herói por vocação, acredita em auto sacrifício e é forte e implacável. Megatron é o vilão arquetípico: covarde, ressentido e vaidoso. Apenas um personagem não se mostra como esperamos: Sentinel Prime, que, desempenhando um papel de traidor digno de Judas Iscariotes na Bíblia,  Efialtes em 300 e Lotso em Toy Story 3, proporciona um momento de virada (o “reconhecimento” que Aristóteles descreve na sua Poética, um dado revelador que muda o rumo da história e revela a solução do roteiro) que realmente surpreende a platéia.

As decisões sonoras são, obviamente, coerentes com o clima de um filme de ficção científica / ação, e também com o fato de ser um produto da indústria cinematográfica americana, que, como se sabe, não costuma brincar em serviço. Tudo em Transformers 3 é planejado para que o filme alcance o lugar que ocupa no momento em que escrevo: o topo do ranking de bilheteria.

Não há superlativos suficientes para descrever a ruidagem, tanto em termos de volume, como em uso dos extremos graves e agudos e da exuberância com que são sonorizadas as transformações, explosões, tiros, zumbidos, cliques, motores elétricos, turbinas, enfim tudo o que obviamente faz barulho quando um automóvel se transforma em um robô gigantesco. Até o logo da Paramount tem som de robô se transformando. Os sound designers tiveram o cuidado de criar sons particularmente interessantes para alguns eventos, como os tiros das naves que atacam Chicago.

A música de Transformers 3 alterna-se entre música instrumental composta originalmente (chamada de música incidental ou, em inglês, score) e canções – não tenho meios de certificar-me, mas imagino que algumas destas  já existiam e outras tantas foram compostas especialmente para o filme. O uso de canções em um filme não musical não é, de forma alguma, novidade. Exemplos muito importantes incluem A Primeira Noite de um Homem, com canções de Simon e Garfunkel,  e Butch Cassidy, em que o filme praticamente se interrompe para apresentar a canção Raindrops Keep Falling on my Head, de Burt Bacharach. Dentro do espírito de um blockbuster, é somente natural a escolha de bandas de rock  “do momento”, como Paramore e My Chemical Romance, para a trilha sonora. O uso de canções pode ter resultados positivos, conferindo uma atmosfera de informalidade e familiaridade que só se consegue com música popular; isso posto, devo dizer que o uso de canções nos créditos finais geralmente me desagrada, pois, justamente, não quero informalidade e familiaridade nessa hora e sim reflexão, um prolongamento das emoções vividas no encerramento do filme. É uma opinião muito pessoal, mas da mesma maneira que em Avatar, e Days of Wine and Roses, a canção no finalzinho de Transformers 3 rouba de mim um pouco do gostinho do desfecho do filme.

O score é grandioso e predominantemente orquestral como deve ser, e utiliza muito bem a voz (um pouco à la Carmina Burana, de Carl Orff) e também a guitarra com distorção. Há muitos trechos cruciais em que a música toma a dianteira na paisagem sonora do filme, sobrepujando os ruídos, como nas batalhas mais dramáticas e na execução de Bumble Bee. Essa “vitória” da música tem um gostinho especial para um compositor de trilha sonora, pois significa que  somente a música pode conferir a necessária profundidade emocional a algumas das cenas mais importantes do filme.

 

3 Responses to O som de Transformers 3: O Lado Oculto da Lua

  1. Henrique Fajardo disse:

    Gostei bastante do seu ponto de vista, apesar de descordar em alguns deles. Os ruídos estão – concordo plenamente com você – muito bem resolvidos. Conseguiram gerar um ruído que caracteriza essa nova roupagem transformer, com os graves bem destacados e distorcidos com reverb e outras mil coisas que não consegui identificar de primeira.

    Entretanto, discordo ao dizer que a trilha sonora merece um destaque tão grandioso. Apesar de todo o tratamento e cuidado para gerar os climas necessários, a imensa disparidade entre as músicas “pop” que permeiam o universo do protagonista e as trilhas épicas (em um estilo contemporâneo) me incomodaram, sendo eu o público alvo que escuta essas bandas “do momento”. Pois, ao invés de levar mais do filme para o espectador, mais ele é retirado da imersão pois está cheio de outras referências para com aquelas mesmas músicas.

    Quanto ao score, acredito que poderiam utilizar uma solução menos épica e que fizesse mais sentido com o contexto. Na verdade, isso é mais uma opinião pessoal, que filmes utilizam elementos de orquestra ou coro porque sabem que podem ser facilmente encaixados sem causar desconforto, mesmo não se contextualizando perfeitamente. Afinal, todos gostam de uma boa música orquestrada. (novamente, opinião pessoal)

    Gostei muito do seu texto Guima, super informal e objetivo, parabéns.

    Henrique

  2. guilherme disse:

    Muito obrigado pelo comentário. Acho que são essas as vantagens e os riscos de usar música popular: por um lado, traz o filme para “mais perto” do espectador, jogando com suas referências; por outro, ao fazer justamente isso, pode prejudicar a imersão. De qualquer maneira, quero assistir o filme de novo com mais calma para entender melhor os momentos em que as canções foram usadas.
    Acho que existe mesmo uma sonoridade quase “genérica” de score, que vai passar quase em branco sem incomodar ninguém; dificilmente vai ser um score que vai ficar na história, apesar de poder ser totalmente funcional.
    Abração!

  3. Parabens, gostei da pagina.

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