A música no jogo Portal ou Por que ouvir GlaDos cantando “Still Alive” é melhor que ganhar um pedaço de bolo.

O uso da música em ambientes interativos como os video games traz desafios e particularidades muito interessantes. Se por um lado muitas das aplicações e funções da música em jogos são semelhantes às que se vê no cinema, por outro há um alargamento das possibilidades musicais devido à interação do espectador com a narrativa.

Logo de saída, a interação resulta em um tempo variável para as fases (ou mesmo para o menu), o que de certa maneira é o exato oposto da montagem ou edição, que por sua vez são a essência da linguagem cinematográfica. Isso significa que a duração das músicas, que no cinema é cuidadosamente planejada para atender à edição, deve se adaptar ao tempo do jogador. A solução mais óbvia para isso é a utilização de músicas cíclicas, os chamados “loops”, mas há muitos jogos eletrônicos que incluem soluções mais sofisticadas, como músicas que mudam de acordo com o contexto. Além disso, a música também pode ter o papel de fornecer ao jogador informações que podem influenciar suas reações e portanto determinar seu desempenho; isto, obviamente, está ausente na experiência de assistir a um filme.

Estas características estão presentes em Portal, mas o que mais chama a atenção neste engenhoso jogo é o uso recorrente de uma composição original chamada “Still Alive”. Para entender os comentários que se seguem, é preciso conhecer um conceito simples mas importante, denominado música diegética: é a música que está no mundo ficcional e que portanto os personagens podem ouvir. As trilhas sonoras podem empregar tanto música diegética como não diegética (que é aquela que somente o expectador pode ouvir). Estes conceitos são explicados em detalhe em um livro fundamental sobre trilha sonora: Unheard Melodies: Narrative Film Music, de Claudia Gorbman.

Eis um resumo da trama de Portal e da utilização da música ao longo do jogo (se você não quer estragar a surpresa de descobrir por conta própria o que acontece no final, não leia o que vem a seguir).

O jogo se inicia com a protagonista (Chell) em uma sala de paredes de vidro que revelam uma sala maior que a envolve, de paredes de concreto. O lugar é asséptico e frio e não há muito para ver: um vaso sanitário, algo que se parece com uma câmara hiperbárica (onde Chell estava em animação suspensa, como se revela depois) e, mais importante para a finalidade deste texto, um pequeno aparelho de som – um rádio, para ser mais preciso. O rádio toca uma alegre música instrumental que contrasta com a atmosfera pouco aconchegante do lugar; conforme a classificação explicada acima, trata-se de música diegética.

Uma voz eletrônica feminina (de um computador chamado GlaDos) dá as boas vindas a Chell e a previne dos testes a que será submetida no “Centro de Enriquecimento” (Enrichment Center) da empresa Aperture Science. A máquina promete bolo se os testes forem cumpridos com sucesso. A chave para a resolução dos testes é a utilização de “portais intra-dimensionais” que permitem ao jogador se teletransportar entre dois pontos do mesmo ambiente. À medida em que Chell progride pelas salas de teste, sempre vazias, GlaDos continua fornecendo informações dúbias (e cheias de humor negro) sobre as vantagens e os riscos dos testes, que gradativamente revelam as intenções malignas da máquina. Em algumas das salas vê-se um rádio idêntico ao do início, tocando sempre a mesma música. Há uma suave trilha sonora não diegética ao final de alguns testes, que via de regra reforçam a sensação positiva de sucesso (como essa é uma música que somente o jogador pode ouvir, e não a personagem, é classificada como não diegética).

Ao final da seqüência de testes, Chell percebe que o bolo é uma mentira e que ela será incinerada (pela primeira vez a trilha sonora não diegética é claramente tensa). Mas Chell consegue escapar do destino previsto pelo cruel computador e começa uma jornada pelas entranhas das gigantescas e sombrias instalações da Aperture Science. Finalmente ela encontra a sala em que está GlaDos, e durante a luta final a máquina revela sua personalidade artificial completamente enlouquecida. Chell consegue derrotar sua inimiga, apesar de seus protestos (“você não se importa comigo”; “o que fiz para merecer isso”) e comentários sádicos e infantis (“ninguém gosta de você”). A vitória de Chell dura pouco: ainda atordoada após a explosão de Glados, a tenaz garota é aparentemente arrastada de volta para a sala inicial.

Começam os créditos e nesse momento o jogador é brindado com uma recompensa musical sutil e particularmente saborosa. Ouve-se uma canção que tem a mesma melodia da música que saía dos rádios, mas em uma versão muito mais suave. É GlaDos que canta, agora com uma voz doce, só levemente robotizada; a divertida letra dirige-se a Chell, fazendo pouco dos seus patéticos esforços e dizendo que o experimento foi um sucesso, pois GlaDos ainda está viva (daí o nome da canção, Still Alive).

Essa música resiste um pouco às classificações apresentadas acima. Ela parece ser diegética, pois é cantada por uma personagem e se refere diretamente aos acontecimentos da narrativa; mas ela toca apenas nos créditos iniciais, o que indica que ela é ouvida somente pelo jogador-espectador. Para classificá-la talvez seja possível fazer uso de um terceiro conceito, também explanado por Claudia Gorbman: o de música metadiegética, que é direcionada ao espectador mas traz referências diretas ao mundo interior de um personagem, revelando musicalmente seus pensamentos.

Classificações à parte, a canção realmente nos faz conhecer um pouco mais da distorcida psicologia de GlaDos. Ela despreza Chell e reclama por ter tido seu “coração partido”; mas faz isso em uma canção tão sarcástica quanto bela, de maneira que ao final quase simpatizamos com a terrível vilã…

 

3 Responses to A música no jogo Portal ou Por que ouvir GlaDos cantando “Still Alive” é melhor que ganhar um pedaço de bolo.

  1. Ademilson Neres disse:

    Como nas aulas do Guima o texto e muito interressante e diz exemplifica bem um dos muitos caminhos que a musica tem trilhado que nesse caso e a no mundo dos games. Ver a musica de um campo que poucas pessoas percebem ou fazem e o que eu acho mais interressante, Parabens pelo site que ficou muito legal e com a cara dele. kkk

  2. Como sempre um texto muito bem escrito e consistente, cheio de informações que por falta de atenção e sensibilidade, acabamos deixando de lado…

    Já começou a jogar o portal 2 Guima? hehehe

    Eu joguei o 1 e o 2, a trilha da continuação é ainda mais fantástica e bem produzida. Não sei se você sabe mas o jogo conta com a dublagem dos atores Stephen Merchant e J. K. Simmons. Muito legal, recomendo!

    Valeu Guima por mais essa “super aula” aqui no seu blog! Continue o ótimo trabalho!

  3. Thiago J. disse:

    Olá,

    Muito bom de ler o seu texto.
    Eu acabei de chegar nos créditos do Portal e já vim para a internet pesquisar sobre esta musica “metadiegética” (aprendi uma palavra nova!).

    Parabéns pelo texto.

    ^^

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