Trilha Sonora: instrumentos musicais em ação

Os espectadores que prestam atenção à música de cinema já devem ter percebido que a maioria das trilhas compartilha uma sonoridade semelhante: trata-se da orquestra sinfônica, que, com algumas modificações, é habitual nas salas de concerto desde o século XIX. Esse grupo tem uma capacidade expressiva gigantesca, explorada à exaustão no repertório do período romântico; trilhas fundamentais do cinema o utilizam, desde clássicos como Bernard Herrmann e Max Steiner a John Williams e Michael Giachinno.

Às vezes, no entanto, se faz necessário adicionar outros timbres à essa base orquestral, para ambientar a música em uma localização geográfica, um período ou um tema específico. Bernard Herrmann, por exemplo, não hesitou em incluir o Theremin na música para O Dia em que a Terra Parou, sublinhando o terror tecnológico gerado pelo robô alienígena Klaatu. O Theremin é um instrumento eletrônico que data do início do século XX e seu som, que se aproxima de uma voz feminina (só que mais pura e com glissandos perfeitos e ilimitados), possui uma qualidade fantasmagórica que o fez ser escolhido para muitos filmes de ficção científica – de fato, ele foi tão utilizado para esse fim que hoje em dia o resultado de seu uso é kitsch e francamente humorístico, como ocorre nas composições de Danny Elfman para Marte Ataca.

Geralmente o instrumento que proporciona essa ambientação tem um timbre inconfundível, que o espectador imediatamente associa com uma determinada parte do mundo ou época histórica. Na verdade, uma pseudo-identificação também é possível: em Avatar, James Horner criou uma música vagamente indígena adicionando vozes e percussão à orquestra; se identificamos essa música com um povo ficcional como os Na’vi, é por pura força do hábito. Do mesmo modo, Hans Zimmer usou vozes vagamente mouriscas para identificar a origem do General Maximus em Gladiador, em uma época em que a Espanha invadida por mouros simplesmente não existia.

As sonoridades típicas do rock também encontram uso, e a mistura da orquestra com guitarra distorcida são muito freqüentes no momento que escrevo este texto (não me refiro aqui ao uso de canções na trilha, mas somente à chamada música incidental, composta especialmente para o filme). A tema de Magneto em X-Men: Primeira Classe, de Henry Jackman, é praticamente heavy metal sinfônico.

Obviamente, a orquestra sinfônica pode ser dispensada como um todo, e o compositor pode optar por um grupo instrumental diferente, ou mesmo por um instrumento solo. É o caso da big-band escolhida por Michael Giacchino para a trilha d’Os Incríveis, o que nesse caso desperta um tipo particular de associação, que é a referência à tradição do cinema. Nesse caso, a big-band foi escolhida para se aproximar do clima de filmes e séries clássicas de espionagem, como Missão: Impossível e os filmes de James Bond. A famosíssima trilha de Herrmann para Psicose usa apenas uma orquestra de cordas, o que de certa forma combina com o clima seco e tenso do filme.

Certos timbres instrumentais são mais neutros que outros (ou seja, não despertam tantas associações). É o caso do piano, que para ser relacionado com uma época ou lugar precisa ser executado de uma determinada maneira; é o caso da trilha d’O Golpe de Mestre, em que se ressucita o ragtime de Scott Joplin para ambientar o mundo do crime dos anos 30 em Chicago (o que por sinal também é, de certa forma, uma pseudo-identificação, uma vez que a alta popularidade do ragtime se deu na virada do século XIX para o XX).

Manuais de orquestração normalmente trazem uma pequena descrição da capacidade expressiva de cada instrumento, com o objetivo de orientar o estudante a usá-los de maneira consciente ao criar climas musicais. Para Rimsky-Korsakov, por exemplo a flauta pode ser “fria e especialmente adequada, no tom maior, para melodias de caráter leve e gracioso; no tom menor, para leves toques de tristeza transitória”. Se por um lado uma descrição como essa pode parecer um tanto reducionista, por outro o compositor de trilha deve ter muita clareza da finalidade com que um instrumento é usado, pois as associações na mente do público são inevitáveis, potentes e rápidas; portanto, se forem indesejadas, podem comprometer a efetividade da trilha.

One Response to Trilha Sonora: instrumentos musicais em ação

  1. Fazia um tempo que não tinha posts novos aqui hein, hehehehe. Gostei muito do novo texto, mandou muito Guima!!!

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