Sincronizando música para imagens

Este texto foi concebido como material didático para a disciplina de Trilha Sonora do curso de Produção Musical da Universidade Anhembi Morumbi.

1. CINEMA, MÚSICA E TEMPO

A linguagem do cinema, assim como a música, é dependente do tempo. Em qualquer tipo de composição, popular ou erudita, percebemos essa dimensão temporal no andamento, na fórmula de compasso e na própria forma da musica: podemos ouvir trechos mais intensos ou mais suaves, percebemos repetições e contrastes que ocorrem ao longo do tempo, conseguimos compreender o desenvolvimento da musica, e em quais momentos o compositor quis imprimir maior dramaticidade, repouso, tensão.

A nossa experiência ao assistir a um filme, da mesma maneira, é determinada pelo ritmo que o diretor imprime às imagens. Cada cena ou situação em um filme requer um ritmo diferente, que é determinado principalmente pela edição das imagens, pelo posicionamento da câmera, diálogos, ruídos etc.

Em uma seqüência de ação, como uma perseguição de carros pelo centro de uma cidade, provavelmente o diretor vai desejar imprimir um ritmo agitado, com cortes rápidos, movimentos de câmera bruscos, ruídos intensos. Em um momento romântico, talvez veremos planos mais longos, pausas maiores entre os diálogos e assim por diante.

A utilização da música vai variar em cada situação, mas é bastante comum que ela assuma a função de enfatizar os movimentos visuais. A composição musical vai, neste caso, ter a “obrigação” de refletir ou enfatizar os movimentos que estamos vendo na tela.

O mickeymousing nada mais é do que esse princípio levado ao extremo. É o que vemos nas trilhas sonoras compostas por Carl Stalling para os desenhos da Warner, ou por Scott Bradley para  os de Tom e Jerry e mesmo na trilha de Max Steiner para King Kong. Cada passo, corte de câmera, movimento brusco ou suave recebe um trecho musical que o reflete. Assim, temos ritmos constantes que imitam uma corrida, escalas ascendentes que se assemelham ao subir de uma escada, e acentos musicais que são análogos a trombadas e quedas.

Estes exemplos representam, como se disse, um extremo de sincronização entre música e imagem. Cada aspecto da música é pensado de maneira a copiar o movimento. Mas mesmo em casos em que não se deseja uma composição do tipo mickeymousing, algum tipo de sincronia é obrigatória. Pode ser que a música não esteja sendo usada para enfatizar a ação, mas mesmo assim ela vai ter de, no mínimo, começar e iniciar no momento correto. Uma música de filme que começa no “lugar errado” não cumpre sua função. Igualmente, se ela não estabelecer com clareza sua função no momento exato, ela não só vai desperdiçar uma oportunidade como vai atrapalhar a narrativa. Como disse a pesquisadora Claudia Gorbman: a música de cinema deve ser imediatamente reconhecida. “Imediatamente” significa também “no momento certo”.

 

2. CRIAÇÃO MUSICAL E SINCRONIZAÇÃO

Quando vamos criar música para cinema, precisamos ter clareza a respeito destes princípios. Além disso, é necessário ter um certo domínio da técnica musical para garantir que a composição, se necessário, vai estar perfeitamente sincronizada com os movimentos da imagem. Há muitas estratégias diferentes de composição musical, talvez tantas quanto há compositores. Alguns preferem planejar cuidadosamente cada aspecto antes de começar a criar a, outros preferem improvisar e registrar, outros preferem trabalhar coletivamente em uma banda. Todos esses métodos são igualmente válidos, mas no caso de composição para cinema talvez pelo menos alguma dose de planejamento seja desejável.

O roteiro a seguir é uma sugestão para direcionar a criação para uma sincronização adequada a um trecho de filme. Esse roteiro pressupõe que o diretor e o compositor já chegaram a um consenso com relação às decisões estéticas mais gerais da música (instrumentação, estilo etc.) e que já foi realizada uma decupagem da música do filme, ou seja, já se sabe o quanto aquele trecho vai durar, qual sua função, qual o clima geral da música e assim por diante.

 

a.    Determinar quais eventos devem ser sincronizados.
O primeiro a fazer é importar o filme para o seu software de áudio. Assista ao trecho algumas vezes e determine quais são os momentos que podem necessitar de sincronia. Use os marcadores do software para registrar esses momentos. Mais tarde você pode desejar desprezar alguns deles para que a música não fique excessivamente truncada. Pode ser útil fazer uma lista, à parte, dos eventos e do seu tempo em relação ao início da cena.

b.    Determinar o andamento e a fórmula de compasso.
Depois, você deve simplesmente assistir ao trecho várias vezes, tentando estabelecer o andamento que funciona melhor. Tente estalar os dedos em um certo andamento, e depois use o metrônomo do software para verificar se você chegou numa solução adequada. Determine também uma fórmula de compasso – talvez a cena se beneficie da instabilidade de uma valsa, ou talvez o melhor seja o 4 por 4 de um rock, ou o compasso binário de um samba.

ATENÇÃO: Os andamentos mais simples de trabalhar são os múltiplos e divisões simples de 60. É fácil perceber por quê: essa divisão de batidas por minuto é a mesma da quantidade de segundos em um minuto. Assim, cada semínima dura 1 segundo. Em 120 BPM, dura 0,5 segundos e a 90 BPM, 0,666667 segundos. Com a tecnologia atual, no entanto, essas contas e subdivisões ficam muito mais simples de resolver e fica mais fácil utilizar andamentos “quebrados”.

c. Criar um layout geral do trecho.
Agora você vai fazer um planejamento geral do trecho, utilizando a escrita musical. Se o trecho dura 10 segundos e você utilizou um compasso 4 por 4 a 60 BPM, crie uma partitura que englobe esse tempo – lembre-se que o primeiro tempo da música equivale a 0 segundos, portanto você precisará de 11 semínimas, ou 2 compassos e 3 tempos. Agora, marque na partitura os acentos necessários. Imagine que há acentos em 3, e 7,5 segundos. Você precisará marcar um acento na quarta semínima do primeiro compasso e na segunda colcheia da quarta semínima do segundo compasso. Escreva na partitura um texto ou número para lembrar que ali deve ir um acento.

d. Compor
Crie a música respeitando os eventos que você determinou.

ATENÇÃO – MARGEM DE ERRO

O espectador somente vai perceber um erro de sincronia que seja superior a aproximadamente um décimo de segundo. Há cortes e eventos muito repentinos em que essa regra precisa ser respeitada; em outros casos, como em fusões e transições suaves, a sincronia precisa não é tão crítica. A dica é usar com sabedoria as figuras musicais menores que uma colcheia (tercinas semicolcheias) para obter sincronias adequadas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Spam Protection by WP-SpamFree